Vida...
Me perco no significado dessa palavra de apenas quatro letras. A biologia é justamente o estudo dos mecanismos da vida e é com ela que estou envolvido.
Creio que todos nós estamos engajados à biologia de uma maneira ou de outra, afinal, estamos vivos e nos relacionamos entre nós e com animais -por mais que isso se torne cada vez mais raro- não podemos parar de aprender e interagir.
Quando penso na minha vida começo a viajar para outras dimensões, outros lugares em outros fases da minha vida.Traumas da infância, momentos felizes ou emocionantes como uma formatura. Tristes como a morte de um parente ou animalzinho de estimação. Tensos como quando temos alguém querido entre a vida e a morte, também de prazeres imensos. Todos os momentos que me lembro me deixaram marcas, de um jeito ou de outro tiveram e têm peso para mim, creio que são quase inesquecíveis. Pensar que todos os seres nesse planeta têm suas vidas e suas marcas, faz com que me sinta perplexo.
A magnitude da vida é tão impressionante que para colocar todas essas vidas de uma maneira clara só posso pensar que tudo que conhecemos, do universo à formiga é uma coisa só, uma vida. Fazemos parte da mesma história. A história da minha vida e a historia do universo acontecem ao mesmo tempo e lugares em comum.
Se for verdade o que parece e temos apenas uma vida, cada um de nós, então é extremamente importante o que fazemos com ela. De uma maneira ou de outra acabei por estudar a biologia. Da biologia marinha à gestão ambiental creio que minha missão seja demonstrar a interconectividade entre todas as vidas. Da aranha ao mosquito- sua presa- até o humano, a preza do mosquito...
Claro que essa conexão é facilmente explicada, afinal, pouco tempo de observação nos proveria claras evidencias da interação entre esses seres tão diferentes. Outras interações já não são tão claras. Não acontecem com tanta freqüência e são essas mesmas as mais significativas.
Não consigo explicar como posso pensar em alguém e ao mesmo tempo essa pessoa pode pensar em mim. Ou como pessoas pensam em coisas iguais ao mesmo tempo. Não sei dizer porque um simples olhar pode expressar mais do que mil palavras, como se um sentimento ou um olhar fosse extremamente palpável. Uma comunicação que é mais do que natural, mas que por ser presenciada apenas algumas vezes, parece sobrenatural.
Bilhões de anos de evolução não podem ter sido em vão. É de acordo com esse conceito de interação de longa data e parentesco de todos os seres que começo a acreditar que o ser humano não viu nem a ponta do iceberg, no que consideramos as belezas da natureza. Câmeras digitais cada vez mais fazem com que olhemos menos com nossos próprios olhos para a realidade. Os paradigmas de investigação e aprendizado parecem cada vez mais nos afastar do que a vida oferece de verdadeiro, de pesado e significante.
Ver um leão caçando um veado na savana através da televisão é uma coisa, podemos até fazer piadas. Estar lá e saber que se o leão escolher outro caminho podemos ser nós a nos deparar com o predador, faz com que encaremos a situação e julguemos o leão e nos mesmos de uma maneira bem diferente.
Sentir a presença de um animal desses é algo que realmente mexe conosco, de uma maneira extremamente difícil de explicar. O coração bate mais forte, o poder da oração na hora aparece e começamos a delirar em pensamentos de salvação e postura defensiva ou não, dependendo da pessoa. O que quero dizer é que a experiência é um fato, enquanto que toda e qualquer separação deste animal, seja por foto ou mesmo por aquário superficializa toda a experiência. Mesmo que pensemos que tal experiência foi profunda, acreditem, não se compara com a realidade da natureza imprevisível. O fato de que nós humanos podemos caçar tubarões e outros animais e ter proteção contra ele não me parece uma vantagem, mas apenas um retardamento no que tange a evolução da vida e do universo.
Já vi muitos golfinhos em aquários e em fotos, mas foi quando me vi frente à frente com um deles- cara-a-cara- dentro do mar sem nenhum outro humano observando ou barreira entre nós, tive a impressão de ser julgado por ele. Ele estava em seu habitat natural e passava realmente perto, expondo seu corpo. Deslizava pela água e exponha seu corpo para mim, da cabeça a calda. Enquanto o fazia me olhava olhos nos olhos. Nesse momento me dei conta, se não da minha insignificância em relação a ele, pelo menos da nossa igualdade.
Admito que me aterrorizei durante algum tempo, até que adquiri uma postura de respeito e comecei a agir como tal, remando mais calmamente, com a coluna ereta e realmente presente, analisando meus movimentos na água e também os dele, tentando prever suas reações e entender sua maneira de agir. Nesse momento a postura do golfinho começou a ser mais amena, nadando mais calmamente e se afastando, até que desapareceu, me parecendo satisfeito com a experiência. Muitos me chamariam de louco por estar lá ou mesmo por achar que me comuniquei com um golfinho. A única coisa que posso dizer a respeito dessa experiência é que ela foi significante para mim. Sem ela, eu continuaria com uma postura desatenta e ausente na água. Saí da água me sentindo diferente e creio que sejam essas experiências de interação real com a natureza que nos conduzem à nossa verdade biológica. Não sei como o golfinho se sentiu, mas estou certo de ele não foi completamente indiferente a toda aquela experiência.
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